RECONTAR A HISTÓRIA, reimaginar o tempo futuro
- 25 de mar.
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Atualizado: 20 de abr.
Da linhagem Kurgan forçada, ao Antropoceno: Uma Genealogia da Fractura entre o Patriarcado Militarizado e a Sabedoria Ecológica Matrifocal
Cláudia D. Rodrigues
Ecopsicóloga, Psicoterapeuta Existencial
Instituto Português de Ecopsicologia - IPEP Alma Gaia
(Curso Introdução à Ecopsicologia 1ª edição, Parceria IPEP & Instituto Brasileiro de Ecopsicologia)
Resumo
Este artigo propõe uma análise transdisciplinar sobre a transição das sociedades matrifocais da "Velha Europa" para o modelo de civilização patriarcal e extrativista. Através das lentes arqueológicas de Marija Gimbutas, da mitologia comparada de Joseph Campbell, e de uma desconstrução fenomenológica Husserliana da vivência interna do tempo, faremos um rastreio da imposição do ethos guerreiro indo-europeu (Cultura Ymna/ Hipótese Kurgan), há cerca de 5.000 a 6.000 anos, à consolidação do estado Romano e à subsequente mutação para o capitalismo patriarcal. Argumenta-se que a crise climática contemporânea e a época do Antropoceno são os desdobramentos lógicos de uma ontologia que substituiu o "tempo orgânico" pelo "tempo mecânico" e a interconexão pela dominação.
Em alguma medida, todos somos filhos e filhas de relações não consentidas. Como aceitar esta herança, sem passar antes de mais pelas paletas de emoções como a tristeza e a revolta? É no questionamento ao sistema dominante, e na revolta rumo a novas integrações, que poderá voltar um rasgo de lucidez. É dando colo à dor, que poderá, quem sabe, ser redescoberto o amor, não só à vida humana, mas numa biofilia redescoberta, re-animada.
As Raízes da Ruptura: Das Sociedades Matrifocais às Invasões Proto-Indo-Europeias
A arqueóloga Marija Gimbutas (2001) identificou na "Velha Europa" (6500–3500 a.C.) sociedades sedentárias, pacíficas e de estrutura matrifocal, onde a Terra era sagrada e a linhagem feminina central. A ruptura deste equilíbrio ocorreu com as sucessivas vagas de invasores aos quais denominou "Kurgos" (Proto-Indo-Europeus).
Como aponta Joseph Campbell (2015) e a arqueóloga Riane Eisler (1995), que esta transição marca a substituição da "Doadora de Vida" e do “cálice”, pelo "Deus do Trovão", e “da espada”. Na Península Ibérica, estudos paleogenéticos contemporâneos corroboram a tese de Gimbutas, sugerindo que, por volta de 3.000 e 4.000 antes da Era Cristã (Idade do Bronze inicial), houve uma substituição de quase 90% da linhagem genética masculina local por linhagens “proto-indo-europeias” (Soares, P., et all, 2019). Este evento não foi apenas genético, como também linguístico e ideológico-cultural: a extinção das lógicas de parceria e a instalação da hierarquia militar, sob um “patriarquismo primitivo”.
A "Civilização" como Tecnologia de Dominação: Da Mesopotâmia a Roma
O conceito de "civilização", exportado da Mesopotâmia, trouxe consigo a estratificação social e a centralização do poder. O Império Romano refinou este modelo, estabelecendo o Estado Militar, assim como o Direito Romano, que codificou a propriedade privada, e o pater famílias. O património tornar-se-ia uma acumulação primitiva destinada aos homens. O matrimónio viria a tornar-se a ideal social para as mulheres, que deveriam passar a doar as suas propriedades à gestão do seu “senhor” (Fosse o senhor feudal ou senhorio, ou mais tarde o marido). Os bens das mulheres serão desde então aquilo que os seus maridos detivessem. Silvia Federici (2020) é uma referência na pesquisa desta acumulação primitiva, as origens do que hoje conhecemos no seu auge, como capitalismo neoliberal: a exploração dos corpos exaustos, através de formas que perversamente falam de “liberdade” individual.
Desde as suas raízes, o patriarcado deixou de ser apenas uma estrutura familiar para se tornar a espinha dorsal da gestão pública. Instalando-se nas estruturas sociais, familiares, e mais recentemente na estrutura psíquica individual como “auto-exploração” (Byung-Chu, H., 2018). A natureza, outrora um organismo vivo, passou a ser vista como res nullius (coisa de ninguém) ou território a ser conquistado, preparando o caminho para uma visão de progresso baseada na expansão territorial e na exploração mecanizada.
Acumulação Primitiva e o Capitalismo Patriarcal Transatlântico
A transição para a modernidade foi marcada pela Inquisição e pela colonização das "Américas". A Inquisição na Península Ibérica funcionou como uma ferramenta de limpeza ideológica, destruindo os últimos vestígios de saberes ancestrais e medicinas tradicionais, frequentemente guardadas pelas mulheres anciãs (frequentemente rotuladas como bruxaria e heresia, na propaganda patricarcal da altura a favor da fragmentação familiar e comunitária através da instilação do medo, do discurso de ódio, e da difamação - A propósito, semelhanças que possamos encontrar com as condutas fascistas de qualquer tempo da nossa história, inclusive a actual, não são mera casualidade, mas sim os mecanismos socais opressivos na sua repetição "compulsiva").
Este processo de "acumulação primitiva" (Marx, K., 2017, in Federici, S., 2020) acuplado a mecanismos sociais de exploração e opressão, foi exportado para o Brasil através das invasões transatlânticas. Assim, o Capitalismo Patriarcal nasceu desta simbiose: o corpo da mulher e a terra da colónia tornaram-se matérias-primas para o mercado global. A exploração do solo brasileiro e a escravização dos corpos indígenas (brasileiros e africanos) são extensões diretas da lógica de dominação estabelecida milénios antes nas estepes indo-europeias.
O Antropoceno e o Conflito da Temporalidade
Chegamos ao Antropoceno, onde a pegada humana altera os ciclos geológicos do planeta. Esta crise não é apenas observável nas emissões de carbono, como também nos revela uma crise ontológica, de sentido, e de identidade. Podemos observar a expressão desta crise sob dois aspectos da vivência e memória do tempo:
Tempo Mecânico vs. Tempo Orgânico (ao qual denominiamos “circular”, ou “lento”): A civilização industrial impôs o tempo do relógio, linear e produtivo, em detrimento do tempo cíclico e interconectado das sociedades matrifocais. As estações do ano, o ciclo das luas, e os ritmos orgânicos do envelhecimento, e da vida-morte-renascimento, passaram a ser conotados a algo a evitar, a banir, alterar, silenciar, tal como foi acontecendo com a organização centrada no poder e nas lógicas femininas interconectadas, de poder comunitário, e descrita por alguns vezes como “caóticas”, por não se encaixarem nas geometrias militares, e trazerem a imprevisibilidade e a multiplicidade do universo e do mistério.
Amnésia Ecológica: A perda da "sabedoria ecológica" é o resultado final da dessacralização da natureza, e da sua dimensão feminina, iniciada pelas invasões indo-europeias. Onde antes havia uma teia de relações, hoje há uma cadeia de produtos, materiais, e “recursos” a explorar.
As alterações climáticas são a resposta biofísica da Terra a um sistema que ignora a interdependência. A visão crítica aqui proposta sugere que não haverá solução climática sem um "reencantamento" do mundo e uma desconstrução das lógicas de dominação patriarcal, que fragmentaram a nossa relação com o tempo e com a vida biodiversa e circular (ou espiralada). Essas lógicas fragmentam também a dimensão do profundo feminino em nós, nas suas lógicas multifacetadas (habitualmente desorganizadoras para o instalado pensamento racional “colonialista-patriarcal-extrativista”).
Para este reencantamento, propomos o regresso à experiencia corporal vivida, ao processo da vivência do “tempo lento”, a uma apologia da pausa, do silêncio, e da reaproximação comunitária local. Na nossa perspectiva, esses serão os primeiros passos para voltarmos a re-habitar as nossas vidas de uma sabedoria ecológica, porque “o contrário da vida não é a morte, mas o desencantamento” (Simas; Rufino, 2019, p.5, in Cardoso, M, 2023).
Conclusão
A trajetória da humanidade ocidentalizada, desde o genocídio ibérico até à crise climática, é uma linha contínua de militarização e construção de estruturas rígidas e retilíneas, levando à vivência da vida como uma abstração, fora do concreto, do particular, do corpo, e da relação autentica. Resgatar as lógicas da sabedoria ecológica matrifocal não é um retorno ao passado, mas uma necessidade de sobrevivência para o futuro, exigindo a transição da exploração mecânica para uma vivência do tempo circular e espiralado, que reconheça a nossa interconexão e interdependência radical. A transição convoca a sua vivência (*).
(*) Foi o que procurámos fazer nesta aula: trazer a história recontada através da vivência circular do “tempo lento”.
Referências Bibliográficas:
CARDOZO, Morena (2023). O tempo da corpa é a Terra: Danzamedicina e a (po)ética do gesto que gesta. Tese de mestrado em Psicologia. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo.
HAN, Byung-Chu (2018). Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução Maurício Liesen. Belo Horizonte: Âyiné.
EISLER, Riane. (1995). O cálice e a espada - A nossa história, o nosso futuro. Via Óptima, Oficina Editoral, Porto.
FEDERICI, Sílvia (2020). O Calibã e a Bruxa. Orfeu Negro, Lisboa.
GIMBUTAS, Marija. (2001). The Living Godess. University of California Press, CA.
CAMPBEL, Joseph. (2015). Deusas - Os mistérios do divino feminino. Palas Athena, São Paulo.
SOARES, Pedro, et all. (2019). Investigação em arqueologia genética: Passado genético da Península Ibérica. Universidade do Minho/ Sciencemag.org/ contente/ 363/ 6432/ 1230.
Temas, Autores, e Referências bibliográficas complementares ao questionamento do pensamento cartesiano (Filosofia Fenomenológico Existencial, Hermenêutica, e Direito Civil Ancestral):
Temporalidade e Vivência Interna do Tempo
HUSSERL, Edmund (1994). Lições Para Uma Fenomenologia Da Consciência Interna do Tempo. (Tradução de Pedro M. S. Alves). Estudos Gerais, Série Universitária, Clássicos de Filosofia. Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa.
Hermenêutica, e Tempo Mítico
RICOEUR, Paul (2011). Tempo e Narrativa. Vol. 3: O Tempo Narrado (Temps et Récit). WMF Martins Fontes, São Paulo.
Legislação e Organização Social de Inspiração Matrifocal
KERRIGAN, Jo (2022). Brehow Laws - The Ancient Wisdom of Irland. The O’Brien Press, Dubin.




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